Precisamos Questionar!


Muitos dos meus amigos dizem que sou questionador e que às vezes tenho opiniões muito polêmicas sobre determinados assuntos.


Mas acredito que nós, como seres humanos e, especialmente, como cidadãos que somos, detentores de direitos e deveres, células de um grande organismo chamado sociedade, precisamos e devemos questionar.


Questionar tudo! Raciocinar, avaliar, analisar, enfim, pensar!


E não aceitar as coisas só porque a maioria pensa desse jeito ou age de tal forma. Maioria nunca foi sinal de sabedoria ou de inteligência, muito pelo contrário. Como diria Raul: "Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo".


Então fiz o blog nesse sentido e dei o nome de QUESTIONAMENTOS, ou seja, quem quiser entrar, participar, questionar, dar sua opinião, fique à vontade.


Na medida do possível vou estar postando aqui textos e artigos de diversos assuntos: política, religião, relacionamento... e de preferência que leve o leitor à reflexão.


É isso ai galera! Vamos questionar!

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

A CARIDADE NO BANCO DOS RÉUS


- Mande entrar a ré! Ordenou o juiz

O tribunal estava montado. A mulher, com passos tímidos, avançou e acomodou-se no banco dos réus. O advogado da acusação estava preparado.



As perguntas, direcionadas à ré, fizeram-se ouvir na sala da justiça:



- Qual o seu nome?



- Caridade - respondeu a interpelada.



- A senhora sabe que está sendo acusada de alimentar a ociosidade e a preguiça dos indigentes da nossa cidade criando obstáculos para que a municipalidade os eduque e os instrua nos conceitos de cidadania?



- Sim.



- A senhora reconhece que, com sua ação, dita caridosa, tem contribuído para o aumento de indigência sustentada?



- Não.



- Consta dos autos do processo que a senhora, na sua instituição, atende pessoas de má vida, consideradas pela lei como contraventoras e até criminosos, e que a senhora não faz distinção entre eles e os cidadãos de bem. - Confirma?



- Sim.



- Consta, ainda, que um cidadão honrado, respeitável membro da nossa comunidade, tomando de boa fé a procurou para pedir orientação sobre um processo justo que deveria mover contra os herdeiros, de cuja herança também tinha por direito participar, e a senhora tentou dissuadi-lo dessa ação, contrariando a Constituição do nosso país que prevê os direitos do individuo. - A senhora confirma?



- Sim.



- Meritíssimo, nada mais tenho a inquirir à acusada declarou o porta-voz da acusação.



Nesse momento o juiz convoca o advogado de defesa. Prontamente ele se coloca diante da acusada e lhe indaga:



- A senhora tem na memória há quanto tempo se dedica a socorrer as necessidades humanas?



- Não.



Voltando-se para os jurados, o causídico inicia a defesa:



- Sabemos, e isto é conhecido de todos nesta cidade e nas cidades vizinhas, que a acusada, com seu carinho e a sua dedicação, tem convertido almas para o bem, principalmente àqueles que a procuraram na condição de contraventores e criminosos, e que hoje são pessoas trabalhadoras e honradas. Poderíamos citar aqui uma centena delas. Devo acrescentar ainda que, para municipalidade instruir nossos irmãos indigentes e reintegrá-los à sociedade, é necessário que eles estejam vivos! Não fosse o trabalho de amor, socorrendo com remédios, alimentos e roupas a esses infelizes, quantos não teriam sucumbido de fome e de frio? Não fosse ainda o calor humano que empresta a nossa irmã aqui acusada a esses irmãos, quantos, no auge do desespero, não teriam praticado o suicídio na fuga desesperada do sofrimento? Quanto ao nobre cidadão que a procurou de boa-fé, e cuja história consta dos autos, saibam os senhores que, depois de gastar suas economias em um processo do qual não tinha direito constituído, é hoje um dos indigentes que sobrevivem da ação caridosa da nossa irmã acusada.



Para surpresa de todos, complementou sua defesa fazendo uma inspirada exaltação. Com os braços estendidos na direção do banco dos réus, afirmou:



Senhora Caridade! Dama do Evangelho! Rainha da Luz! Procurei por você entre os ricos que distribuem as sobras, mas fui encontrá-la entre os mendigos que repartem entre si as migalhas que os alimenta e os trapos que os aquecem. Procurei por você nos grandes templos das religiões do mundo, mas fui encontrá-la entre o povo, estendendo suas mãos generosas, ocorrendo à necessidade humana, oferecendo, além do pão, o calor da fraternidade e do amor que reconforta o espírito. Seguindo o seu rastro de luz, pude ver muitas feridas do corpo e da alma cicatrizando-se ante a ação do seu inigualável amor. E hoje você está aqui! Diante do tribunal da insensatez humana sendo julgada por amar demais seus semelhantes. Sei que as leis que orientam o seu coração estão além das leis mesquinhas dos homens. Por isso, peço-lhe, perdoa-nos alma querida e justa, pois os Homens ainda não sabem o que fazem.



Encerrada a defesa, o júri absolveu a acusada por unanimidade.



Irmão X / Francisco Cândido Xavier

sábado, 6 de novembro de 2010


"Há tantos burros mandando em homens de inteligência que às vezes fico pensando que a burrice é uma Ciência".

Ruy Barbosa


Há um debate nada salutar que ainda vigora no nosso país, especialmente em época de eleições. É o debate que divide a sociedade em dois pólos antagônicos, o Povo X a Elite. Como se uma elite não fizesse também parte de um povo. Aliás, a palavra elite nada tem a ver com o sentido que a empregam nesse tipo de debate. Explica Aurélio Buarque de Hollanda que elite, do francês élite, significa “o que há de melhor em uma sociedade, minoria prestigiada, constituída pelos indivíduos mais aptos”. Ou seja, são as pessoas do povo mais informadas, com capacidade de análise, com condições de avaliar o certo e o errado.


Assim, num contexto mais histórico, podemos dizer que foi a elite que lutou pela independência do Brasil, pela República, pelo fim da ditadura, pelas diretas-já, pela defenestração do Collor e até mesmo para tirar Lula (que se diz contra as elites e a favor do povo) das grades da ditadura em 1980, onde passou 31 dias, e depois o elegeu, o primeiro operário, Presidente do Brasil, na esperança de mudança. Mas ainda hoje a elite é vista como a inimiga. Não acho correto essa divisão. Mas tudo bem, vamos dividir e pensar.


O cidadão que veio da elite, que teve o privilégio de aprender a ler, de estudar, de trabalhar, de comer diariamente e de ter pais dispostos a se sacrificar para que pudesse ser capaz de pensar com independência. O cidadão que veio do povo, seguindo o raciocínio da divisão, naturalmente não teve as mesmas oportunidades. Considerando a realidade brasileira, a elite seria uma minoria e o povo a maioria, não precisa ser nenhum gênio para chegar a essa conclusão. No nosso regime de governo vence, via de regra, o representante que é escolhido pela maioria de votos. Isso é basicamente a Democracia, o governo do demo, demo= povo, cracia= governo.


Há um refrão popular muito entoado pelo próprio povo: “A voz do povo é a voz de Deus”. Então Deus é o demo, é o povo a se manifestar? Que Deus é esse? Eu acredito num Deus soberanamente bom, justo e de infinta sabedoria e inteligência. Pela divisão que fizemos isso não tem nada a ver com o povo, certo? Estou aqui num jogo de palavras buscando reflexão. Há uma inversão de valores quando se fala em povo e elite. Se você buscou conhecimento, sabedoria, trabalho e bem estar material, você se “elitizou” e não é mais do povo! Você prefere ler um bom livro, escutar um clássico e ver programas culturais, não gosta de cerveja, carnaval e futebol, ah meu amigo, você não é do povo, é elite! É o povo que diz! E a voz do povo é a voz de Deus!?

Abaixo segue um texto interessantíssimo abordando este e outros temas. Corroboro com todos os argumentos do colunista. Sigamos em frente, refletindo e fazendo a nossa parte, na esperança de que um dia povo e elite se confundam, definitivamente!


sexta-feira, 5 de novembro de 2010

GANHEI CORAGEM


Rubem Alves

Colunista da Folha de São Paulo

"Mesmo o mais corajoso entre nós só raramente tem coragem para aquilo que ele realmente conhece", observou Nietzsch. É o meu caso. Muitos pensamentos meus, eu guardei em segredo. Por medo. Alberto Camus, leitor de Nietzsche, acrescentou um detalhe acerca da hora em que a coragem chega: "Só tardiamente ganhamos a coragem de assumir aquilo que sabemos". Tardiamente. Na velhice. Como estou velho, ganhei coragem.

Vou dizer aquilo sobre o que me calei: "O povo unido jamais será vencido", é disso que eu tenho medo. Em tempos passados, invocava-se o nome de Deus como fundamento da ordem política. Mas Deus foi exilado e o "povo" tomou o seu lugar. A democracia é o governo do povo. Não sei se foi bom negócio; o fato é que a vontade do povo, além de não ser confiável, é de uma imensa mediocridade. Basta ver os programas de TV que o povo prefere.

A Teologia da Libertação sacralizou o povo como instrumento de libertação histórica. Nada mais distante dos textos bíblicos. Na Bíblia, o povo e Deus andam sempre em direções opostas. Bastou que Moisés, líder, se distraísse na montanha para que o povo, na planície, se entregasse à adoração de um bezerro de ouro. Voltando das alturas, Moisés ficou tão furioso que quebrou as tábuas com os Dez Mandamentos.

E a história do profeta Oséias, homem apaixonado! Seu coração se derretia ao contemplar o rosto da mulher que amava! Mas ela tinha outras ideias. Amava a prostituição. Pulava de amante e amante enquanto o amor de Oséias pulava de perdão a perdão. Até que ela o abandonou. Passado muito tempo, Oséias perambulava solitário pelo mercado de escravos. E o que foi que viu? Viu a sua amada sendo vendida como escrava. Oséias não teve dúvidas. Comprou-a e disse: "Agora você será minha para sempre."Pois o profeta transformou a sua desdita amorosa numa parábola do amor de Deus. Deus era o amante apaixonado. O povo era a prostituta. Ele amava a prostituta, mas sabia que ela não era confiável. O povo preferia os falsos profetas aos verdadeiros, porque os falsos profetas lhe contavam mentiras. As mentiras são doces; a verdade é amarga.

Os políticos romanos sabiam que o povo se enrola com pão e circo. No tempo dos romanos, o circo eram os cristãos sendo devorados pelos leões. E como o povo gostava de ver o sangue e ouvir os gritos! As coisas mudaram. Os cristãos, de comida para os leões, se transformaram em donos do circo.. O circo cristão era diferente: judeus, bruxas e hereges sendo queimados em praças públicas. As praças ficavam apinhadas com o povo em festa, se alegrando com o cheiro de churrasco e os gritos.

Reinhold Niebuhr, teólogo moral protestante, no seu livro "O Homem Moral e a Sociedade Imoral" observa que os indivíduos, isolados, têm consciência. São seres morais. Sentem-se "responsáveis" por aquilo que fazem. Mas quando passam a pertencer a um grupo, a razão é silenciada pelas emoções coletivas. Indivíduos que, isoladamente, são incapazes de fazer mal a uma borboleta, se incorporados a um grupo tornam-se capazes dos atos mais cruéis. Participam de linchamentos, são capazes de pôr fogo num índio adormecido e de jogar uma bomba no meio da torcida do time rival.

Indivíduos são seres morais. Mas o povo não é moral. O povo é uma prostituta que se vende a preço baixo. Seria maravilhoso se o povo agisse de forma racional, segundo a verdade e segundo os interesses da coletividade.. É sobre esse pressuposto que se constrói a democracia. Mas uma das características do povo é a facilidade com que ele é enganado. O povo é movido pelo poder das imagens e não pelo poder da razão. Quem decide as eleições e a democracia são os produtores de imagens. Os votos, nas eleições, dizem quem é o artista que produz as imagens mais sedutoras. O povo não pensa. Somente os indivíduos pensam. Mas o povo detesta os indivíduos que se recusam a ser assimilados à coletividade. Uma coisa é a massa de manobra sobre a qual os espertos trabalham.

Nem Freud, nem Nietzsche e nem Jesus Cristo confiavam no povo. Jesus foi crucificado pelo voto popular, que elegeu Barrabás. Durante a revolução cultural, na China de Mao-Tse-Tung, o povo queimava violinos em nome da verdade proletária. Não sei que outras coisas o povo é capaz de queimar. O nazismo era um movimento popular. O povo alemão amava o Führer. O povo, unido, jamais será vencido!

Tenho vários gostos que não são populares. Alguns já me acusaram de gostos aristocráticos. Mas, que posso fazer? Gosto de Bach, de Brahms, de Fernando Pessoa, de Nietzsche, de Saramago, de silêncio; não gosto de churrasco, não gosto de rock, não gosto de música sertaneja, não gosto de futebol. Tenho medo de que, num eventual triunfo do gosto do povo, eu venha a ser obrigado a queimar os meus gostos e a engolir sapos e a brincar de "boca-de-forno", à semelhança do que aconteceu na China.

De vez em quando, raramente, o povo fica bonito. Mas, para que esse acontecimento raro aconteça, é preciso que um poeta entoe uma canção e o povo escute: "Caminhando e cantando e seguindo a canção." Isso é tarefa para os artistas e educadores.

O povo que amo não é uma realidade, é uma esperança.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Aos meus colegas Servidores Públicos - "Eleições"


Caros colegas,

Chegaram as eleições! Estamos no 2º turno! O cidadão consciente deve votar buscando o melhor representante público para a sociedade, ou seja, qual ele considera o mais preparado para desempenhar o papel de provedor dos interesses coletivos. É isso que se espera, pelo menos, da parcela esclarecida da população, na qual eu incluo nós, servidores públicos.

Lamentavelmente, já ouvi posicionamentos entre nós baseando-se tão somente em meras expectativas de interesses particulares, a ponto de ser exclusivamente esse o motivo do voto naquele determinado candidato(a). Vou ser mais claro, ouvi tal justificativa, apesar mesmo de haver plena consciência de que se não tivesse tal expectativa, não escolheria o candidato(a). Sendo mais claro ainda: "Sou contra tudo o que esse candidato(a) ou partido faz, mas voto nele(a) porque a probabilidade de passar um aumento salarial é maior."

Ao me ver, esse tipo de posicionamento é pior que o das classes mais pobres e de baixa ou nenhuma instrução, que muitas vezes votam a troco de cestas básicas ou mesmo de dinheiro, porque votam pela necessidade, pela dor no estômago, enquanto nós, parcela incluída socialmente e bem instruída, não temos nenhuma justificativa para agir da mesma maneira.

Não quero aqui proferir julgamentos, como se eu também não tivesse o meu lado egoísta, mas ao ouvir esses posicionamentos em muitos colegas servidores, me senti compelido a ter a audácia de enviar essa reflexão. Transcrevendo aqui a pergunta 932 de O Livro dos Espíritos:

Por que, no mundo, os maus têm geralmente maior influência sobre os bons?
- É pela fraqueza dos bons; os maus são intrigantes e audaciosos, os
bons são tímidos; quando estes últimos quiserem, dominarão.

Portanto, não utilizemos como único critério "o próprio umbigo" na hora de exercer um dos mais importantes papéis da cidadania. Lembremos que não vivemos numa ilha. Vamos votar com consciência de cidadão, tentando escolher o melhor para o coletivo, do qual fazemos parte. Vamos analisar o candidato(a) como se fossemos contratá-lo para gerir nossa empresa, nossa família, nossa casa, nossas vidas e a de todos os demais cidadãos. Todos os candidatos são ruins? Então vamos pela lógica do menos pior, é a "Escolha de Sofia" já que o nosso sistema nesse sentido (cosntitucional mas totalmente falho) não permite outra saída.

E que Deus nos abençoe!

Rodolpho Barreto Pereira

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

CONHECE A TI MESMO

O autoconhecimento, uma valiosa ferramenta para o aperfeiçoamento constante de nós mesmos. Fruto da introspecção, leva o sujeito a ser mestre de si mesmo e, consequentemente, um ser humano melhor.

"Aquele que todas as noites lembrasse todas as suas ações do dia, e, se perguntasse o que fez de bem ou de mal, pedindo a Deus e ao seu anjo guardião que o esclarecessem, adquiriria uma grande força para se aperfeiçoar, porque, acreditai-me, Deus o assistirá. Formulai, portanto, as vossas perguntas, indagai o que fizestes e com que fito agistes em determinada circunstância, se fizestes alguma coisa que censuraríeis nos outros, se praticastes uma ação que não ousaríeis confessar (...)"

"O conhecimento de si mesmo é portanto a chave do melhoramento individual. Mas, direis, como julgar a si mesmo? Não se terá a ilusão do amor-próprio, que atenua as faltas e as torna desculpáveis? O avaro se julga simplesmente econômico e previdente, o orgulhoso se considera tão somente cheio de dignidade. Tudo isso é muito certo, mas tendes um meio de controle que não vos pode enganar. Quando estais indecisos quanto ao valor de uma de vossas ações, perguntai como a qualificaríeis se tivesse sido praticada por outra pessoa. Se a censurardes em outros, ela não poderia ser mais legítima para vós, porque Deus não usa de duas medidas para a justiça. Procurai também saber o que pensam os outros e não negligencieis a opinião dos vossos inimigos, porque eles não têm nenhum interesse em disfarçar a verdade e geralmente Deus os colocou ao vosso lado como um espelho, para vos advertirem com mais franqueza do que o faria um amigo. Que aquele que tem a verdadeira vontade de se melhorar explore, portanto, a sua consciência, a fim de arrancar dali as más tendências como arranca as ervas daninhas do seu jardim; que faça o balanço da sua jornada moral como o negociante o faz dos seus lucros e perdas, e eu vos asseguro que o primeiro será mais proveitoso que o outro (...)"

Santo Agostinho - O Livro dos Espíritos

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

O MARMITEX DE PONTA PORÃ


Iniciei minhas atividades no Ministério Público na cidade Ponta Porã, interior do Mato Grosso do Sul, fronteira com o Paraguai. O momento era de grande importância "tanto no pessoal como no profissional" como diria o Faustão, haja vista não só a expectativa de começar a trabalhar após a aprovação no concurso público, como também o fato de ir morar sozinho em outra cidade, longe da minha família e amigos.


E dentre outras questões que surgiram ao sair da comodidade da casa dos pais era: o que comer? Cozinhar sem chance, não dava para viver de ovo frito e macarrão instantâneo toda hora. Então começei a acompanhar os meus colegas de trabalho em um restaurante self service que cobrava por quilo. Era legal almoçar e conversar com o pessoal do trabalho, mas havia dois problemas - eu comia um prato razoável e gastava pelo menos uns 15 reais com a bebida (os meus colegas gastavam 7 reais mas comiam como periquitos, sinceramente não sei como se aguentavam em pé no trabalho depois) e, ao final da tarde, mesmo após algum lanche feito na copa do trabalho, já estava com fome de novo.


Procurando outra alternativa, me indicaram uma senhora que fazia marmitex em sua própria casa. Encontrei o que seria a minha refeição quase que diária durante o pouco mais de um ano em que estive na fronteira. O marmitex, além de lembrar o gosto de comida caseira que os restaurantes não tinham, custava apenas 5 reais e dava para almoço e janta! Mas não demorou muito e apareceram as gozações: " 5 reais! não deve ser bom, como você é pão duro!" Ou então diziam: "Nossa você ainda almoça e janta a mesma comida requentada, que absurdo"! Qual o problema se eu gostava da comida e era barata?


Certa vez li numa revista um artigo afirmando como as pessoas atribuem valor às coisas simplesmente pelo preço. Como teste, colocaram um violinista famoso tocando na rua, e ninguém dava bola. O detalhe é que as apresentações desse violinista eram sempre lotadas e o valor do ingresso era de nao sei quantos mil reais. O mesmo aconteceu pelo fato de eu morar em um hotel simples, mas que tinha tudo! Quase todos falavam: "Que loucura! Morar em um quarto! Por que não monta um apartamento? É pão duro mesmo!"


Mas gostei muito de morar no hotel e tenho ótimas lembranças de lá. No quarto tinha cama de casal, ar condicionado, TV e banheiro com chuveiro elétrico. Comia um baita café da manhã todo dia e não precisava me preocupar com limpeza e arrumação do meu quarto, como em qualquer hotel.


Quando me encontram hoje em Campo Grande e eu conto que estava em Ponta Porã é recorrente ouvir: - Que bom! Que sorte você ter voltado para Campo Grande!" E eu sempre respondo: - Olha, se foi sorte ou não, só sei que voltei. Se eu estivesse lá ainda, também poderia me considerar com sorte. É um ótimo lugar de se morar. Fui muito feliz lá, assim como sou muito feliz aqui!

quarta-feira, 23 de junho de 2010

FISCAIS DA IMPRUDÊNCIA, NÃO DO ÁLCOOL!



É com muito pesar que a sociedade assiste quase que diariamente às notícias nos jornais sobre mortes no trânsito, e sempre culpando o conhecido vilão: o álcool. Apesar da Lei Seca, os acidentes aumentaram, especialmente no MS. No entanto, é preciso ter em mente que a causa direta dos acidentes é a IMPRUDÊNCIA no trânsito, fator este proveniente ou não do alcoolismo. Portanto, a fiscalização deve ter como finalidade coibir os atos de imprudência dos condutores.


Nesse sentido, as conhecidas BLITZ são formas ineficazes de fiscalizar: um motorista dirigindo imprudentemente, ao avistar uma blitz, passa a dirigir corretamente, e depois de atravessá-la, longe da vigilância, volta a dirigir da mesma forma. O mesmo exemplo se aplica na atuação das blitz quanto ao cumprimento da Lei Seca: um motorista alcoolizado dirigindo, imprudentemente ou não, ao avistar uma blitz estaciona o carro, ou desvia por outra rua e, longe da vigilância, continua a dirigir.


Minha sugestão: em vez de BLITZ (postos fixos de fiscalização) os policiais poderiam atuar dirigindo livremente pela cidade em suas viaturas (de preferência não caracterizadas). Poderiam também, estrategicamente, circular próximos de lugares onde tenham concentração de jovens e bebida. Assim, ao avistar um motorista dirigindo de maneira IMPRUDENTE, em alta velocidade por exemplo, o policial o abordaria de surpresa (o que não ocorre numa blitz) e tomaria as providências necessárias (multas, sanções, etc).


Perceba que no caso exemplificado, o motorista poderia estar ou não alcoolizado! Não importa: o que realmente importa é que ele estava dirigindo com risco à segurança de outras pessoas! Isso é evidente! Os poderes públicos e jornais insistem em culpar o vilão álcool, anunciando estatísticas como "90% dos acidentes fatais envolvem condutores alcoolizados" mas eu pergunto: esses motoristas alcoolizados por acaso não estavam em altíssima velocidade? Com certeza sim, em 100% dos casos!


Todos nós sabemos que se um senhor sair para jantar com sua família e tomar uma ou duas taças de vinho, ele terá condições de dirigir, via de regra, perfeitamente bem! E pasmem: é esse cidadão que acaba caindo numa BLITZ e sofrendo uma série de sanções, enquanto o verdadeiro criminoso está longe da vigilância, dirigindo perigosamente e arriscando a vida de todos.